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05/02/10

Pessoa e Camões

A febre do que me suponho

A febre do que me suponho
Tolda-me a fronte de o pensar.
Mas, se penso, somente sonho,
Porque a febre me faz sonhar.

Num intervalo de mim mesmo
Durmo desperto sem razão,
E sou um encontrar-me a esmo
Entre silêncios em desvão.

Delírio de quem o não tem,
Sonho que não me faz dormir —
Isto não é nem mal nem bem,
Não é pensar nem é sentir.

Fernando Pessoa


Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões

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